quarta-feira, 4 de julho de 2012

Vida sertaneja: mais que botas, couro e chapéu


-->
O relógio marca vinte e uma horas e dezessete minutos e já é tarde para quem pretende entrar na mais badalada casa sertaneja da Capital sul-mato-grossense, um polo da música sertaneja de raíz e as mais recentes universitárias.

Pode parecer improvável, mais há os que frequentam a casa sem nem mesmo gostar de sertanejo. Estão ali por serem “arrastados”, como eles dizem, por seus amigos baladeiros, amantes de música e botas e chapéus.

Valley Pub está entre as cinco melhores casas noturnas sertanejas da América latina. Reúne música, risadas e muito Jargermeifter, a bebida mais conhecida como “jegmaster”, pelos frequentadores da casa noturna. O líquido é servido em uma espécie de tubo de ensaio personalizado, pode não ser tão forte assim, mas parece liberar um instinto de liberdade por qualquer um que a ingere.

Scalise, decorador da casa noturna, caprichou nos adereços e formas rústicas do Pub. Chapéus no teto e carcaças bovinas dão um ar rústico refinado e mergulham os frequentadores em um mundo distante do que os sul-mato-grossenses estavam acostumados, antes da inauguração, em 2010.

Mas, bebidas a parte, a grande atração chega e é possível vê-los pela porta de vidro. Thiago e Graciano, uma das duplas mais requisitadas da Capital. Eles esbanjam carisma e simpatia. A presença da dupla traz mais que burburinhos de fãs enlouquecidas. Eles irradiam o ambiente com sorrisos contagiantes e uma sintonia sem igual.

É hora de subir no palco. No caminho, os meninos de ouro, como são chamados, não caminham mais de dois passos sem cumprimentos e apertos de mão. Cena comum de ser vista numa terra onde os talentos brotam aos montes.

Um coro os acompanha já na primeira música, “Amor, loucura ou solidão”, música de trabalho desta dupla que faz história há cinco anos. Em frente ao palco, um desfile de rostos e corpos quase que impecáveis tornam a casa noturna ainda mais atraente.

Quem vai até a Valley Pub e conhece seus encantos, nunca mais esquece, torna-se frequentador assíduo. Ao menos é assim que os clientes determinam sua fidelidade. Lincoln Fraiha, sempre rodeado de amigos, sem dúvida é um dos maiores fãs da casa noturna.

Flashs acontecem a todo o momento. As chamadas fotos espontâneas e sem permissão são as mais disputadas, talvez pela busca por uma espécie de fama ou de status noturno. Sites de cobertura, fotógrafos da casa e ainda celulares e câmeras pessoais fazem a divulgação da balada sertaneja destinada às classes A e B da Capital.

A dupla continua a animar a plateia. Com os chamados “arrochas”, a casa fica pequena para tanta animação. A banda, em pura sintonia, interage com os vocais. Violões, mesa de som, sanfona e muita festa. A realização de um sonho acontecendo nas noites de Campo Grande.

Chega a ser engraçada a comunicação entre fãs e artistas. De um lado, olhos penetrantes e coreografias ensaiadas. De outro, sorrisos receptivos e felizes por receberem tanto carinho. Os olhares são acanhados, mas cheios de vida por perceberem tanta aceitação.

Enquanto isso, Flaviano Longo, dono da casa noturna, aproveita a noite também para divertir-se. Sorridente, parece satisfeito por ter trazido para Campo Grande a casa mais falada por seu público quase que diário. As duas casas que abriu na Capital provocam burburinhos e marcações também nas redes sociais.

Para o proprietário de quatro casas noturnas que levam o mesmo nome, seus investimentos são em busca de entretenimento de qualidade, que antes era pouco oferecido na Capital. Além da sede em Campo Grande, a Valley Pub também está em Cuiabá, no Mato Grosso e São José do Rio Preto, em São Paulo.

É chegada a hora das músicas românticas. As letras tocam os jovens corações e as reações são imediatas. Os ouvintes ransformam as letras em suas histórias de vida. De olhos fechados, música na ponta da língua e um pensamento que viaja longe da noite de balada sertaneja.

Alguns expressam amores passados. Grandes goles de uma mistura de energético, vodka, paixão e saudade. As mulheres, que são maioria, espantam seus fantasmas e ex-amores com cada vez mais doses de Jegmasters. Danças provocantes e roupas da moda não deixam a desejar.

Os papéis parecem se inverter. Hoje, mulheres vão à caça, buscam por suas necessidades femininas em formas cada vez mais explicitas. Homens parecem apáticos a tanta indiscrição. Nada de buquês e luz de velas, uma dose de qualquer bebida que seja faz muito bem este papel.

Os que se atrevem a conversar em meio a tanta loucura gastam as cordas vocais para serem compreendidos. Os que não conseguem, partem para a área livre aos fumantes. A fumaça não impede que as conversas e paqueras sejam postas em dia. Sorrisos mostram que o papo, se convincente, cola.

Os garçons, com seus uniformes vermelhos, estão por todas as partes. Atendem aos pedidos simples e recusam alguns inesperados. Tiram fotos e servem o que lhes pedem... Apenas isso. Ao menos é o que é possível ver a olhos nus, dentro das quatro horas de observação.

Chega o término das duas horas de show dos meninos de ouro. Término nesta casa, porque a noite de Thiago e Graciano está apenas na metade de seus trabalhos. Mais um show está marcado para o mesmo dia, às duas e meia da manhã.

Despedem-se de seus fãs e vão rumo à Vila Universitária, outra casa noturna embalada por hit`s sertanejos. Esta, um pouco menos requintada, mas igualmente frequentada por adoradores de sertanejo.

Cada show reflete o amor que os dois dedicam à profissão que escolheram, encantando a todos um talento sem igual. O cansaço começa a apresentar sinais. Um bocejo aqui, uma leve olheira em um dos vocais. Mas, nada que deixe o público sem sua atração principal.

Antes da próxima apresentação, uma parada de descanso, de repouso, ou preparação. Uma conversa que, ao longe, parece ser entre amigos, se mostra muito profissional quando ouso aproximar-me de meus focos de observação.

Trocam ideias de letras, falam sobre possíveis trabalhos. A pouca idade não faz jus ao profissionalismo destes profissionais, todos novos, mas responsáveis pelo sucesso desta noite.

Há um sinal de que está quase na hora de mais uma subida ao palco. O mais intrigante é que, a cada vez que sobem ao palco, parece ser a primeira vez. Faz o sinal da cruz e a voz daquele menino de vinte anos toma conta do lugar, enquanto a plateia o acompanha no coro.

A reação não podia ser diferente. As fãs enlouquecidas e os rapazes acompanhados de seus copos alcoólicos que são suas parcerias de todas as noites. Um espaço que remete muito às noites da fazenda, em um tempo muito distante deste que descrevo.

Aqui, nada de muito diferente, além do estilo mais despojado que na casa noturna classe A, na área central de Campo Grande. Aqui é possível encontrar produções menos hollywoodianas, mais chapéus nas cabeças, e não no teto. Menos salto alto e muita bota suja de lama.

Mais uma hora e meia de show e os meninos de ouro parecem ter cumprido o dever, ao menos desta noite de sexta-feira e madrugada de sábado, na capital do sertanejo, onde os “pratas da casa” sonham em ganhar o mundo e encantar plateias por todo o Brasil.

Fico por aqui também com o trabalho jornalístico. Vejo que o mundo sertanejo vai além de botas, couro e chapéu. E não há nada de simplório, além, é claro, do sotaque típico de roça que muito me agrada. Um mundo onde só quem conhece a sua essência consegue entender tanto amor por um estilo musical.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seguidores